Friday, May 25, 2007

Nosso Espelho

Reflexo, repetido, insano e perplexo no meu espelho. Este que nunca ninguém se olhou. Qual o mistério? Nele vejo paisagens, coisas belas, mas não me vejo. Sintamos-nos assim, confusos.

"Quando se tem alguém que ama de verdade, serve de riso pra humanidade, é um covarde, um fraco, um sonhador"(Lupicínio Rodrigues).

Neste espelho, quem ama vê como eu! Será que vivo sempre procurando rir pra não chorar? A busca do encontro e a falta de paciência de esperar. Já nasci, vivo como incessante fonte de amor que nunca seca. Amigos, amantes, amores, paixões, lição de vida.

O espelho mostra no reflexo de quem ama, apenas o interior, um vazio de belas paisagens e acontecimentos, espelho mágico que mostra um futuro que nunca chega ou um passado que nunca aconteceu. Como pôr um fim nisso, se mesmo depois de quebrado ele misteriosamente amanhece intacto no mesmo lugar na parede do meu quarto? É assim, ele persegue, te amarra, dopa, alucina e nunca realiza. Parece não saber o que mostrar. Não vale chorar, vendo um olhar, um vulto turvo passar, lembranças, passado, presente, tudo misturado. Faz a gente cometer loucuras, viver um inferno, tortura, solitária e incrivelmente acompanhada, compassada. Há quem chame isso de tristeza ou amargura, mas não é isso que o espelho mostra! Como pode!? Contradição? Porque ele é sempre tão confuso, vezes mostrando tudo de forma tão simples, noutras embaçando tudo, enlouquecendo, mas sempre com serenidade, que tranquiliza o escândalo interno. Mas calma, vejo algo se formar ao meu lado, no espelho! Parece um lugar longe no meio do nada! Você vê isto? Tem alguém ali, me olhando, e veja como parece emocionado, e ri, e chora, e ri, está feliz. De braços abertos vem correndo pelo descampado que não sei onde fica. Há mais alguém ali! Nossa! Sou eu? Parece que sim! O encontro! Espelho maldito! Deixe-me me paz! Ele não pára. O que vem desta vez? Sim, o encontro. O reflexo. A ilusão. Nossa! É lindo! Mas existe? É real ou é só mais um engodo!? Não sei, mas não me entrego aos maus pensamentos, nem à tristeza e ao amargor. Continuo preferindo ser como sou, como gosto de ser, como podemos ser, como sempre serei, como somo todos que temos este espelho em casa. Fonte de amor que nunca seca.


Arthur Carneiro